quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Pensando sobre aposentadoria



Pensando sobre aposentadoria, por Flávio Costa

Tudo aquilo que está presente na mente humana é resultado de um processo de simbolização: o sujeito em meio a uma vivência mescla-a com experiências anteriores, com seus traços de personalidade e caráter e forma-se uma representação do que foi vivido. Vale dizer que essa representação não é imutável: é dinâmica, produtora de efeitos e sentidos.

E aquilo que ainda não foi vivenciado? Não há representação no psiquismo? Ao contrário, costuma ter uma representação mental. Ainda que frágil. A despeito da mencionada fragilidade, pode despertar considerável angústia por não ter seus contornos definidos. Por ainda não ter sido vivida e representada de forma que se tenha a ilusão de controle sobre ela, tal representação é permeada de elementos de ansiedade e expectativa. Geralmente, a base das representações mentais e encontram-se disponíveis na rede social: na família, nos amigos, nos amores, no trabalho.

Pensar sobre aposentadoria é, antes de tudo, criar um espaço na mente para a (pré)visão de um futuro sem o trabalho. Mais próximo de uns e distante de outros, mas será vivido por todos os trabalhadores. Essa criação não se dá sem alguns entraves, sem alguma resistência. A mente humana, regida por princípios de autosatisfação, não costuma tolerar de bom grado doses muito altas de frustração. Muito embora esta mesma frustração seja necessária para o desenvolvimento de limites e criação de alternativas válidas àquilo que não foi possível obter. Lição a ser aprendida até a morte, aprendizagem final.

O fato é que pode ser frustrante desligar-se do trabalho em si e do que ele representa e proporcionaPode ser. Outras possibilidades são aquelas criadas pelo próprio sujeito, além do discurso de investir numa segunda carreira. Possibilidade válida e louvável como qualquer outra, mas há uma hegemonia deste discurso tornando-o lugar comum; o que gera ainda mais ansiedade e angústia no trabalhador que simplesmente não deseja trabalhar mais e quer descansar, e se depara através de seu desejo de pertencimento a uma sociedade com o conflito de não corresponder a um ideal de aposentadoria vigente em seu meio. Ou o conflito de querer aposentar-se, mas ainda existem alguns compromissos financeiros por algum tempo. As melhores saídas (do trabalho, pelo menos) são aquelas definidas dentro da história de vida e de trabalho do/a futuro/a aposentado/a. Saídas que indiquem viabilidade de serem transformadas em práticas cotidianas e em longo prazo dentro de um contexto já organizado de alguma forma: a família.

Para além de qualquer prescrição em massa de “como aposentar-se sem sofrimento!”, é preciso que este espaço seja criado com a matéria de que são feitos os sonhos. Evidentemente, faz-se necessário, se não imperativo, que a representação da aposentadoria, sob a forma de sonho ou pesadelo, seja convertida num projeto. E nesta perspectiva de construção do próprio futuro quem melhor do que o próprio sujeito para dar as cartas?

Muito vem se falando, escrevendo e estudado sobre o tema. Diversas instituições vêm desenvolvendo atividades e intervenções profissionais nos moldes do que convencionou-se chamar de Programa de Preparação paraAposentadoria (PPA). Qualquer semelhança com outra sigla semelhante - Plano Plurianual (PPA) – não é mera coincidência, visto que ambas destacam o elemento planejamento, ação antecipatória. Através de uma metodologia que favorece a transmissão de informações de ordem fisiológica, emocional, jurídica, social e outras, instituições facilitam o acesso a elementos/ferramentas para a passagem de seus funcionários pela aposentadoria.

Além de facilitar a cada um, enquanto autor de seu futuro, a abertura de uma brecha para a construção de um novo pensar sobre a aposentadoria, há uma vivência de troca de experiências muito rica com o debate entre os participantes.  O ganho nesta aprendizagem tem longo alcance: para quem participa diretamente, lidando melhor com as angústias (e alegrias também, por que não?) e as gerações presente e futura que ao conviverem com aposentados autores de suas vivências de aposentadoria desenvolverão uma auto imagem positiva neste sentido. Herança duradoura, considerando os dados estatísticos que veem um aumento num futuro próximo da população maior de 60-80 anos.  Seja numa segunda carreira, seja dedicando-se ao lazer, que o uso do tempo anteriormente ocupado pelos afazeres do trabalho seja produto de uma escolha consciente, possível, viável. Enfim, planejada.

Pensemos então. 

*Flávio Costa é psicólogo da Ufal, lotado na Progep

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Experientes levam vantagem nos negócios

Experientes levam vantagem nos negócios
Para o Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), empresários tardios contam até com algumas vantagens competitivas em relação aos mais novos: possuem experiência e maturidade. De modo geral, conseguem lidar com os desafios e problemas de uma maneira mais equilibrada, além de costumarem planejar mais.
Passar de empregado a patrão depois de décadas também exige certos cuidados. Empreender é muito mais do que substituir o ócio por uma distração.
A professora do programa de pós-graduação em psicologia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Fátima Santos também faz algumas alertas. “As empresas, claro, são pautadas pelo interesse de que os mais velhos saiam. A tentativa também é de dar outras perspectivas de vida para os que se aposenta, mas é preciso ter cuidado e não acabar caindo de novo no trabalho pesado”, comenta.
“De maneira geral, tem-se sempre a ideia de que é preciso trabalhar para ser reconhecido socialmente. As pessoas também podem pensar em outros projetos de vida, como viajar, descansar, ler todos os livros que sempre quis ler, mas nunca teve tempo, por exemplo”, acrescenta.
Ela diz ainda que “é necessário olhar todas as nuances, pois é legal que as empresas desenvolvam esse tipo de trabalho, mas a mudança existe cuidado. Afinal, trabalhar não é a única atividade importante na vida”.
Fátima reforça também o quanto as perspectivas dos mais velhos mudaram. Na década de 1980, ela desenvolveu uma pesquisa na área de identidade na aposentadoria com 120 homens e mulheres. Um dos resultado foi a comprovação do quanto pendurar as chuteiras era, nesta época, algo bem problemático. “Os homens, maioria esmagadora de trabalhadores na época, por possuírem uma áurea de seres reprodutores, comandantes da família, terminavam perdendo as perspectivas. Muitos adoeciam, ficavam carregando o sentimento de inutilidade ou até mesmo se negavam a deixa o emprego”, relata. “Já as mulheres se sentiam mais atingidas porque terminavam se restringindo ao cuidado com a casa e com os netos”, observa Fátima.

Fonte: Jornal do Commercio - Recife - 10.10.2011

Aposentou-se? Nada de ócio


Aposentou-se? Nada de ócio
PRODUÇÃO Empresas como a Celpe e o Santander criam programas para estimular aposentados a continuar produzindo e aprendendo
Raissa Ebrahim
raissa@jc.com.br
Antigamente, se aposentar era sinônimo de passar o dia de pijama na cadeira de balanço esperando a vida passar. A realidade, influenciada pelo envelhecimento da população, no entanto, vem mudando. A preocupação em se manter produtivo está cada vez mais presente na vida dos mais velhos. E não é só no bolso que a diferença pesa: inúmeros estudos comprovam que deixar para pendurar as chuteiras mais tarde ajuda a preservar a saúde e posterga a perda de memória, por exemplo. A conjuntura tem levado, inclusive, as empresas a pensar na questão. A Companhia Energética de Pernambuco (Celpe), por exemplo, criou o programa Meu Momento, em que oferece aos futuros aposentados aulas de empreendedorismo, voluntariado, planejamento financeiro, previdência e motivação pessoal.
A notícia é boa para ambos os lados. Ganha a empresa, que fica bem vista pelos funcionários e ganham os funcionários, que aprendem uma ocupação depois de pedir as contas.
José Normando da Silva é um bom exemplo disso. Ele tem 55 anos, se aposentará em breve e tem como meta abrir uma loja de artesanato regional em Carpina, já de olho na Copa de 2014. Normando já recebeu dicas de como empreender. O próximo passo será montar um plano de negócios. “De imediato, irei investir na minha ocupação, para não ficar no ócio, mas isso também me ajudará a ter uma renda extra. Comecei a trabalhar na Celpe em 1974 como eletricista. Depois de alguns anos, passei para o cargo de agente administrativo, onde estou até hoje”, conta.
A boa fase teve ecos também no relacionamento dele com a esposa. “Ela já pensa em se aposentar daqui a quatro ou cinco anos para se dedicar à loja junto comigo”, diz.
O objetivo do programa, explica o superintendente de gestão de pessoas da companhia, Bruno Coelho, é justamente desmistificar a ideia de que a aposentadoria é o fim da vida. “A aposentadoria era um paradigma, por mais que se chegue a ela, ninguém nunca está 100% preparado, geralmente há um grande receio em sair e não ter perspectivas para o terceiro momento”, comenta.
Na opinião da idealizadora da iniciativa, também presente nas distribuidoras Coelba (BA) e Cosern (RN), a diretora de gestão de pessoas do Grupo Neoenergia, Lady Morais, o programa é uma forma de retribuição aos funcionários. “O aumento de faixa etária dos empregados também foi um dos motores para o surgimento da iniciativa”, complementa Coelho.
Quem já tinha um certo conhecimento ou desejava seguir uma segunda carreira também está enxergando novas perspectivas. José Nilson da Silva trabalhou na Celpe por 32 anos. Hoje, ele trabalha como massoterapeuta prestando serviço como autônomo. “Eu já possuía formação na área e, quando me aposentei, decidi intensificar, através das dicas que recebi”, explica. “Agora continuo na atividade, montando meus próprios horários, trabalhando para mim sem estresse”, comemora.
O curso termina com uma grande formatura, uma forma de a empresa mostrar o valor do funcionário e agradecer pelo tempo de serviço. Já foram formadas três turmas de cerca de 30 alunos este ano.
Algumas instituições, como o banco Santander, já investem em ações semelhantes há algum tempo, com foco não só para o quadro de pessoal próprio, mas aberto a todos os brasileiros com mais de 60 anos. O programa Talentos da Maturidade promove anualmente um concurso de talentos. São cinco categorias: artes plásticas, fotografia, literatura, música vocal, programas exemplares (espaço para iniciativas que valorizam a experiência e maturidade). Para a instituição, a ação é uma forma de valorizar quem não está mais no mercado.

Fonte: Jornal do Commercio - Recife - 10.10.2011