Pensando sobre aposentadoria, por Flávio Costa
Tudo aquilo que está presente na mente humana é resultado de um processo de simbolização: o sujeito em meio a uma vivência mescla-a com experiências anteriores, com seus traços de personalidade e caráter e forma-se uma representação do que foi vivido. Vale dizer que essa representação não é imutável: é dinâmica, produtora de efeitos e sentidos.
E aquilo que ainda não foi vivenciado? Não há representação no psiquismo? Ao contrário, costuma ter uma representação mental. Ainda que frágil. A despeito da mencionada fragilidade, pode despertar considerável angústia por não ter seus contornos definidos. Por ainda não ter sido vivida e representada de forma que se tenha a ilusão de controle sobre ela, tal representação é permeada de elementos de ansiedade e expectativa. Geralmente, a base das representações mentais e encontram-se disponíveis na rede social: na família, nos amigos, nos amores, no trabalho.
Pensar sobre aposentadoria é, antes de tudo, criar um espaço na mente para a (pré)visão de um futuro sem o trabalho. Mais próximo de uns e distante de outros, mas será vivido por todos os trabalhadores. Essa criação não se dá sem alguns entraves, sem alguma resistência. A mente humana, regida por princípios de autosatisfação, não costuma tolerar de bom grado doses muito altas de frustração. Muito embora esta mesma frustração seja necessária para o desenvolvimento de limites e criação de alternativas válidas àquilo que não foi possível obter. Lição a ser aprendida até a morte, aprendizagem final.
O fato é que pode ser frustrante desligar-se do trabalho em si e do que ele representa e proporciona. Pode ser. Outras possibilidades são aquelas criadas pelo próprio sujeito, além do discurso de investir numa segunda carreira. Possibilidade válida e louvável como qualquer outra, mas há uma hegemonia deste discurso tornando-o lugar comum; o que gera ainda mais ansiedade e angústia no trabalhador que simplesmente não deseja trabalhar mais e quer descansar, e se depara através de seu desejo de pertencimento a uma sociedade com o conflito de não corresponder a um ideal de aposentadoria vigente em seu meio. Ou o conflito de querer aposentar-se, mas ainda existem alguns compromissos financeiros por algum tempo. As melhores saídas (do trabalho, pelo menos) são aquelas definidas dentro da história de vida e de trabalho do/a futuro/a aposentado/a. Saídas que indiquem viabilidade de serem transformadas em práticas cotidianas e em longo prazo dentro de um contexto já organizado de alguma forma: a família.
Para além de qualquer prescrição em massa de “como aposentar-se sem sofrimento!”, é preciso que este espaço seja criado com a matéria de que são feitos os sonhos. Evidentemente, faz-se necessário, se não imperativo, que a representação da aposentadoria, sob a forma de sonho ou pesadelo, seja convertida num projeto. E nesta perspectiva de construção do próprio futuro quem melhor do que o próprio sujeito para dar as cartas?
Muito vem se falando, escrevendo e estudado sobre o tema. Diversas instituições vêm desenvolvendo atividades e intervenções profissionais nos moldes do que convencionou-se chamar de Programa de Preparação paraAposentadoria (PPA). Qualquer semelhança com outra sigla semelhante - Plano Plurianual (PPA) – não é mera coincidência, visto que ambas destacam o elemento planejamento, ação antecipatória. Através de uma metodologia que favorece a transmissão de informações de ordem fisiológica, emocional, jurídica, social e outras, instituições facilitam o acesso a elementos/ferramentas para a passagem de seus funcionários pela aposentadoria.
Além de facilitar a cada um, enquanto autor de seu futuro, a abertura de uma brecha para a construção de um novo pensar sobre a aposentadoria, há uma vivência de troca de experiências muito rica com o debate entre os participantes. O ganho nesta aprendizagem tem longo alcance: para quem participa diretamente, lidando melhor com as angústias (e alegrias também, por que não?) e as gerações presente e futura que ao conviverem com aposentados autores de suas vivências de aposentadoria desenvolverão uma auto imagem positiva neste sentido. Herança duradoura, considerando os dados estatísticos que veem um aumento num futuro próximo da população maior de 60-80 anos. Seja numa segunda carreira, seja dedicando-se ao lazer, que o uso do tempo anteriormente ocupado pelos afazeres do trabalho seja produto de uma escolha consciente, possível, viável. Enfim, planejada.
Pensemos então.
*Flávio Costa é psicólogo da Ufal, lotado na Progep
Pensando sobre aposentadoria, por Flávio Costa
Nenhum comentário:
Postar um comentário