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Não há um só ponto da face que não denuncie que a idade chegou. "Normalmente é a parte física que mais complica. Você não enxerga bem, quando se esforça muito as juntas ficam doendo", comenta o maître aposentado Riomar de Paiva Borges. Mas esses sintomas passaram quase em branco para seu Riomar. A constatação de que tinha envelhecido chegou de repente."Passei quase 70 anos sem perceber que tinha envelhecido. Eu não acho nada mal envelhecer, só tenho bronca é de desaparecer. Você não sabe de onde veio, nem para onde vai. Na minha concepção, a velhice traz essa coisa estranha de desaperecer", diz ele.
Mas seu Riomar, que tem medo de morrer, não teme a vida. E desde cedo ela ensinou muito a este nordestino cheio de garra. Foi garçom, maître, servente, faxineiro, motorista, comerciante. Estudou inglês e francês.
"Quando cheguei do Nordeste, meus colegas e eu fomos trabalhar na obra carregando balde de massa, limpando chão. Mas eu limpava chão de manhã e estudava à noite. Não podia estar limpando chão, não me acomodei", conta.O temperamento não era o de um espectador. E, além do mais, ele precisava aumentar a renda de R$ 1,5 mil de aposentadoria. "Eu não sei ficar parado. Já pensou ficar dentro de casa, sentado na varanda. Até cheguei a botar cadeira de balanço", conta seu Riomar. |
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Cadeira de balanço e tricô também não tiveram espaço na vida de da publicitária aposentada Malu Soares. "Está louco? Não nasci para isso não. Esse negócio de trabalhos manuais não é comigo", diz ela. Para quem deu duro desde os 14 anos de idade, era difícil mesmo desacelerar.A paraibana de 62 anos, aposentada aos 49 como publicitária, continuou em atividade por mais nove anos. Quando o mercado de trabalho fechou as portas para ela, ainda se sentia útil. A renda caiu de dez para três salários-mínimos.
A aposentadoria trouxe doenças e um novo sentido para uma palavra sempre ligada a excessos. "Eu pensava que estresse era de quem trabalhava demais. Ele (o médico) disse que são as duas coisas. Eu havia parado de uma vez por todas e meu organismo não se acostumou com isso. Então, fiquei estressada", conta dona Malu.
Dona Malu e seu Riomar, conterrâneos, nem se conhecem. Mas fazem parte de um grupo de milhões de brasileiros que têm um desafio: provar que ainda é cedo para cruzar os braços. Aposentados obrigados a criar uma receita própria para conciliar tempo livre com dinheiro curto.
A fórmula de seu Riomar é seguir em frente, sem escolher serviço. E, aos 77 anos, lá vai o "office-velho". Ou melhor, "office-old", como ele mesmo se orgulha de ser chamado. De ônibus, a pé. Um banco, outro, mais um... E assim ele consegue dobrar os rendimentos no fim do mês. E faz planos com a disposição de um adolescente. "Se com 100 anos eu estiver como estou hoje, vou parar. Porque acho um absurdo um cara com 100 anos ficar trabalhando na rua", anuncia.
O mesmo sentimento de dona Malu. "Eu mentalizei que vou morrer com mais de 100 anos. Com certeza, até os 90 eu vou trabalhar. E ainda vou ter dez anos para usufruir", planeja.
O estresse foi embora quando começaram as aulas na Universidade da Terceira Idade. O curso? Recepcionista. A escola? Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj). Homens e mulheres se preparam para voltar ao mercado de trabalho. As técnicas quebram a timidez.
"Assim que você se aposenta fica contente por estar em casa. Mas com o decorrer do tempo fica faltando atividade, relacionamentos, trabalho, profissionalismo", diz a administradora aposentada Sônia Maria Farrula.
"Acho isso uma injustiça, quando a gente tem toda uma gama de experiência e pode ensinar muito", comenta o vendedor aposentado Aluísio Canno.
Dona Malu foi a primeira. Conseguiu emprego como corretora de imóveis. Quem duvida que ela vai conseguir o que queria? "Tudo que a gente coloca na mente acontece. Se você botar que tem doença, vai morrer logo. Se você disser que é saudável, vai chegar aos 90 anos, com alto astral e bem de vida. Adeus, estresse", aconselha ela.Um novo ritmo. Movimento durante a aposentadoria. Conselho de quem já viveu muito e encontrou um caminho. Não importa a fórmula: para cada aposentado, uma descoberta. |
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Há 16 anos uma galeria na Penha, no subúrbio do Rio, ganhou um novo zelador, um aposentado como tantos outros que continuam trabalhando para aumentar a renda. Mas não era só isso. Marcelino Calixto Jr. era também um cantador. E perto dos 80 anos de idade, é ele quem espanta toda a tristeza do lugar.Saúde frágil, muito remédio para comprar e um salário-mínimo no fim do mês. A faxina surgiu como única opção para este ex-metalúrgico continuar se sustentando. Cada loja paga R$ 20 pela limpeza. A serenata? Bem, essa sai de graça. "No mundo em que estamos, não podemos ficar pensando. Temos que levar o barco", diz o aposentado.A galeria pára para ouvir seu Marcelino. Ou será Jamelão? O apelido é mais uma referência carinhosa ao velho sambista da Mangueira. "Acho muito bom cantar, me faz viver mais um pouco", diz ele. Chão, corrimão, escada – tudo brilha ao som de Lupicínio Rodrigues.
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